Com assédios em alta e poucas mulheres em eventos e na tomada de decisão, a equidade de gênero se mostra um desafio às empresas, operadores e governos. 

A construção de sociedades mais justas e sustentáveis envolve o combate à desigualdade de gênero. Quando falamos de mobilidade urbana, percebemos um grande abismo entre quem administra e faz políticas e as pessoas que mais utilizam o transporte público: mulheres, negras e de baixa renda. 

Além de serem o principal público, são as mais vulnerabilizadas, com casos de assédio ganhando cada vez mais notoriedade. Só em Fortaleza, a cada três horas uma mulher é assediada sexualmente, dados que seguem na mesma linha em outros cantos do país. 

Com isso em mente, nasce o projeto Direção Feminina, que busca catalogar e disponibilizar à gestores e curadores de eventos em mobilidade e transportes profissionais mulheres capazes de abordar qualquer assunto, sempre sob a ótica única do feminino. A iniciativa é do Agora é Simples, portal de conteúdo voltado à inovação na mobilidade e da ONBOARD, startup criadora do site.

O projeto surgiu impulsionado pela“Carta Compromisso sobre Equidade de Gênero na Mobilidade Urbana”, ação da sociedade civil que reúne empresas, coletivos, organizações e pessoas físicas em pautas para alcançarmos cidades e transportes mais justos, igualitários e seguros a todos.  A demanda nº 10 da carta assume a busca sobre a paridade de gênero e equidade racial em todos os eventos, painéis e/ou seminários sobre mobilidade urbana e urbanismo, alvo do projeto Direção Feminina. 

Para construir uma mobilidade urbana mais inclusiva e que atenda às necessidades das mulheres é necessário ouvi-las e empoderá-las na tomada de decisão, e não apenas endereçar políticas públicas. 

Interessados em diversificar eventos, pesquisas e espaços de diálogo e tomada de decisão podem acessar a página do portal dedicada ao projeto. Por lá, mulheres que atuam na área de mobilidade e transportes também podem se cadastrar para a rede. 

Acesse: https://www.agoraesimples.com.br/direcao-feminina

Um panorama no Brasil

De acordo com a pesquisa realizada para a produção da Carta Compromisso, dentre os cadastrados no Fórum Nacional de Secretários de Transporte da Associação Nacional de Transporte Público apenas 14% são mulheres, com 86% sendo homens. 

Números assim são semelhantes em diversos espaços, a começar pelo Congresso Nacional, onde apenas 15% das parlamentares são mulheres. 

A falta de representação nesses espaços inibe a criação de soluções para problemas que mulheres enfrentam, como o assédio no transporte público. Somente nos últimos anos cidades têm adotado ações mais enfáticas para coibir casos de abuso em ônibus e vagões, sendo que esta é uma demanda das mulheres há muito tempo. 

Apenas em 2018 o crime de importunação sexual foi acrescentado ao Código Penal, em decorrência da pressão após casos de assédio de grande repercussão. 

Novas leis e informação sobre o tema sendo divulgada são um dos fatores para o aumento de denúncias. Só em Minas Gerais, por exemplo, dados da Secretaria de Segurança Pública mostram um aumento de 42% em denúncias envolvendo ônibus entre 2018 e 2019, incluindo aí não somente ônibus de transporte público. 

Mesmo com avanços para a implementação de medidas efetivas é necessário que mulheres produzam políticas públicas endereçadas a esse e outros problemas.